Música
Pimentáda | Marthiya de Abdel Hamid, de Alberto Pimenta
Primeiro, a escrita
Marthiya de Abdel Hamid, segundo Alberto Pimenta, ressoa no meu espírito desde que adquiri o livro, numa edição de 2005.

5 Abr 2025 | 17h00
O projecto
O que justifica esta espera de vinte anos? Umas vezes, dificuldades técnicas, que não permitiriam, no momento, que a ideia que tinha na cabeça se pudesse concretizar. Outras vezes, encruzilhadas artísticas, alguns desencontros. Depois de uma exasperante, por vezes irritante, espera, seguramente, desencorajante para muitos, surgiu a possibilidade de meter este projecto em marcha, integrado neste ciclo dedicado ao poeta, organizado pelo Teatro da Rainha. Depois de algumas conversas preliminares, surgiu então a possibilidade de passar das palavras aos actos. Finalmente, o Marthiya de Abdel Hamid, segundo Alberto Pimenta está aí, pronto a ser apresentado.
Trata-se da primeira vez em que executo, eu, em palco, um projecto de teatro-música, género que abracei há décadas, que explorei de diversas formas e que domina praticamente toda a minha produção artística.
Uma coisa é necessário sublinhar: o facto de esta ideia ter sobrevivido tantos anos, a despeito de tantas modificações tecnológicas, tanta dificuldade em que o sector das artes vive permanentemente, tantos trambolhões políticos. Há qualquer coisa de perene neste Marthiya de Abdel Hamid, nesta tragédia. Uma lição permanente que parece ter ficado por aprender, mas que vai resistindo, cujos efeitos se projectam para além do tempo. A raíz do mal que gerou este poema não foi ainda cortada, é preciso lembrá-lo sempre, por todas as formas. É preciso lembrar a obscena actualidade do tema, um conflito que não parece ter fim à vista, que não cessa de insultar as nossas consciências.
As raízes
Fiz várias tentativas, anteriormente, de leitura sonora de outros textos, de outros autores, com um panejamento sonoro. Feitos em circunstâncias, tecnicamente, mais ou menos sofisticadas, que deixavam adivinhar, porém, qualquer coisa como esta que agora proponho. Passado todo este tempo é, naturalmente, mais fácil, no plano técnico, produzir este trabalho. A tecnologia tem, confesso, um peso substancial neste projecto. Mudou muito, nestes vinte anos, na forma de a operar e no tamanho.
A solução que entendi seguir parece encaixar, em grande parte, no conceito extraordinário e bastante desafiador do “entre’, formulada pelo meu queridíssimo amigo e companheiro de tantas jornadas pedagógicas e musicais, António de Sousa Dias (1). O meu obrigado a ele por me ajudar reflectir sobre este assunto. Dentro da paleta sonora que uso neste Marthiya de Abdel Hamid, há períodos em que o fundo sonoro está “entre” os sons reais, pré-gravados, que uso e a minha voz ao vivo. Está “entre” a música, a poesia e o teatro, “entre” a performance e a instalação, “entre” a música e o design sonoro. Está “entre” um universo sonoro real e outro, totalmente artificial. “Entre” o audível e o imaginado, inaudível, “entre” o audível e o surdo.
Nós, por nossa vez, estamos todos metidos “entre” o velho horror loci e a desinquietação que este(s) conflito(s), sem fim à vista, que nos persegue(m) há demasiado tempo e que constituem o tema da peça, nos provoca. Conflitos aos quais não damos senão uma atenção tangencial, em ocasionais descidas pela avenida ou comentários, mais ou menos, inflamados nos falsos fora da modernidade. Nada que cause verdadeira mossa, portanto, e que sirva para nos tirar deste confortável estado de letargia e indigência intelectual em que uma boa parte da Humanidade se parece ter enterrado.
Qual o impacte que têm estes tipos de iniciativas, neste estrebuchar de um sistema de vida iníquo, que vai gerando uma espécie de topologia do terror? Pergunto-me...
Escrever com som,
Podemos escrever com som? Penso que sim. “A escrita é uma tecnologia,” como nos lembrou Walter J. Ong (2), “uma redução do som dinâmico a um espaço quiescente.”
“As tecnologias não são simples auxiliares exteriores,” acrescenta Ong, “mas também transformações interiores da consciência, sobretudo no caso da palavra.”
Em Marthiya de Abdel Hamid tento percorrer este caminho de modo inverso.
À escrita do texto, procurei juntar uma outra escrita. A sua caligrafia assenta no som. Uma dimensão introduzida em tempo real, que procura reflectir a tal leitura sonora que o texto escrito me suscitou. É esta a metáfora deste projecto. Escrevo com som, como se se tratasse de didascálias, ou daquelas notas à margem, comentários e outras sugestões de leituras complementares, escritas nas margens dos livros, prática à qual eu, aliás, recorro de forma obsessiva.
Curtas notas técnicas
Um projecto, pois, com três fontes primárias. O texto, a voz que o diz e o dispositivo electrónico que faz o processamento da palavra, a escrita sonora, levando-a do tal espaço quiescente que ocupa, de volta para o som dinâmico.
O dispositivo usado para esse efeito assenta, quase exclusivamente, num Pacamara Ristretto, de última geração, a correr o programa Kyma. O Mara liga a dois interfaces que, por sua vez, comunicam com o Ableton Live. Os interfaces recebem também os sinais dos microfones, que captam a minha voz, a directa e a que serve de matéria prima para o Kyma processar. Vários, simples, dispositivos externos são utilizados, então, para controlar, finamente, quer o Kyma quer o Ableton.
Coreografonias
Este é, finalmente, uma sucessão de pas de deux. Entre a palavra escrita e a palavra dita, entre os fonemas e os sons das ondas geradas pela escrita sonora, entre a voz e os gestos finos da mão.
O primado é sempre, pois, o da escrita. A do texto de Alberto Pimenta, em primeiro lugar, perante o qual me curvo respeitosamente. Também a escrita sonora, a real, a gestual e a metafórica. Que produz uma espécie de sub-escrita dramatúrgica, que aqui me aventurei a experimentar. Talvez funcione. Al-hamdu ‘lillahi.
Carlos Alberto Augusto
Referências:
(1) Sousa Dias, António. Criação Musical e Sonora. Trabalhando nos território do “entre”. Geografias culturais da música do som e do silêncio, Vol. 2
(2) Ong, Walter J., Orality and Literacy.
Agradecimentos ao Teatro da Rainha, nestes 40 anos de colaboração e à Avantools Lda. Agradecimentos especiais ao Paulo Jorge Ferreira, pela generosidade do seu apoio, ao Fernando Mora Ramos, à Ana Pereira. e ao Jorge Simões da Hora. Também a todos os amigos que foram acompanhando a produção deste projecto e me vão dando o alento que falta, por vezes, para continuar.
Por fim, e em primeiro lugar, este trabalho é dedicado ao meu filho Hugo. À sua enorme coragem e valentia, na luta por um mundo mais justo. A ninguém mais se ajustaria tão bem este projecto do pai.
Mais informações em teatrodarainha.pt
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262 823 302 | 966 186 871
De segunda a sexta, das 9h às 18h, e dias de espectáculo até às 20h.