Uma Peça | Um Museu
Menino Jesus Bom Pastor
Escultura em marfim representando o Menino Jesus Bom Pastor, com a árvore da vida.
Uma peça do Museu do Oriente.
Menino Jesus Bom Pastor
Goa, Século XVII
Marfim
29,5 cm x 15,8 cm (eixo maior), 5,2 cm (eixo menor)
Aquisição, 2005
FO/0994
No topo, representação do Padre Eterno, Deus Pai, segurando o mundo com a mão esquerda e com a direita em gesto de oração (palavra). A representação da Trindade completa-se ainda com a pomba do Espírito Santo.
A figuração do Menino Jesus inspira-se nas representações orientais de Buda, como Maitreya, o enviado para salvar o mundo. Encontra-se sentado, com as pernas cruzadas ao modo oriental (em regra, a direita sobre a esquerda), cabelos em caracóis bem desenhados, apoiando o rosto na mão direita, em posição meditativa, dormente. Ao colo tem uma ovelha, e no ombro, outra.
Traja o velo pastoril, cingido à cintura com laçada, acompanhado do bornal fixo por correia que cruza o peito e uma cabaça presa ao cinto. Calça sandálias. No primeiro nível do empório ou monte rochoso, jorra água de uma carranca, para um vaso onde duas aves se descedentam. Junto a elas pasta um rebanho de ovelhas. No segundo nível, dentro de uma gruta, surge-nos Maria Madalena, penitente, deitada à indiana, com a cabeça apoiada numa mão e com a outra segurando o livro sagrado.
Este exemplo de cruzamento entre a inspiração cristã ocidental, assente no vasto universo da gravura e a correspondente materialização onde se incorporam harmoniosamente diversos elementos de cariz oriental, pretende transmitir, integrando várias inspirações, uma parábola do Evangelho de S. João (Jo 9).
Estas esculturas destinavam-se a oratórios privados e eram verdadeiros instrumentos didáticos, pois através de uma linguagem artística híbrida, tornavam os ensinamentos da doutrina cristã mais inteligíveis. A imaginária tornava a teoria mais facilmente apreensível.
O marfim utilizado no seu fabrico, extraído das presas de elefante, era proveniente, na sua maioria, da costa oriental africana, de países como Kenya, Tanzânia e Moçambique, apreciado pela grande dimensão das presas (que podiam atingir 3 metros) e com qualidades de dureza para o entalhe, transparência e polimento.
Joana Belard da Fonseca